Share on facebook
Share on google
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest
Share on whatsapp
Share on email

Valores pessoais e familiares influenciam nossas atitudes e são elementos constituintes da nossa identidade. A forma como as pessoas nos percebe influencia as escolhas de convívio. Segundo a antropóloga Sylvia Caiuby Novaes[1], a identidade é única e singular, mas pode abarcar um sistema de representações, que acolha semelhanças e interesses comuns. Assim sendo, é possível perceber também, a identidade de grupos familiares e de organizações em torno de propósitos comuns.

Crenças, interesses, valores e comportamentos constroem a identidade da família empresária que absorve exemplos, experiências de fracassos e sucessos e a percepção de mitos e narrativas contadas através de gerações. De modo prático, é comum reconhecer características comportamentais incorporadas e reproduzidas como, a sensação de pertencimento e orgulho ao grupo e alguns padrões de comunicação.

Assim, quando a família constrói um negócio, seus valores e princípios éticos tangenciam também a identidade da organização. Adicionalmente, a identidade da organização é moldada pelos comportamentos de colaboradores que ajudaram a erguer o negócio. A comunicação com o mercado faz com que os stakeholders reconheçam o que é tolerado, o que é inegociável e as formas de lidar e interagir com as pessoas desta organização. Desta forma, a identidade atrai ou afasta grupos de pessoas e influencia decisões.

Ainda que, a identidade da organização adote traços próprios e, em partese descole da identidade da família, as atitudes da família estão na essência da empresa e possuem grande peso na reputação da organização. Esta essência, comum, impacta na percepção dos stakeholders, especialmente com relação a reputação e credibilidade das pessoas. Dito isso, percebe-se o potencial de contágio entre ambas identidades, especialmente diante da tecnologia digital e da velocidade das informações.

Os desafios

A LGPD – Lei Geral de Proteção de Dados, despertou para a importância de manter dados íntegros e seguros. O “pano de fundo” da lei é a vulnerabilidade de informações concedidas, a suscetibilidade de manipulação mal-intencionada de dados ou sem consentimento e, o potencial estrago financeiro e reputacional.

Este novo cenário desperta a Governança Familiar para algumas questões relacionadas aos cuidados com a divulgação de informações pessoais da família;

A possibilidade de ambiguidade entre as mensagens transmitidas pela família e pela empresa, a disseminação de fake news, riscos com a segurança da família, desconhecimento sobre impactos na divulgação de informações e a falta de orientação para lidar com o mundo digital. Tais questões, reforçam a importância em conceber clareza na declaração de valores comuns e compromisso ético que reforcem um comportamento responsável.

Dito isso, ganha relevância a preocupação com a atitude de familiares e seus representantes, as formas de interação das diferentes gerações e o grau de vulnerabilidade que exposições nas mídias sociais oferecem a família e a organização. Já mencionei em artigoanterior, Governança e Privacidade em Empresas Familiares[2], o direito à privacidade e o dever da governança em proteger a organização e seus stakeholders, de atos que ameacem a estabilidade da organização. 

Tais ameaças, muitas vezes, surgem a partir da má orientação ou do uso inapropriado das ferramentas digitais. A conscientização da família em não “abrir a guarda” para as investidas maliciosas é um bom começo. Alguns aplicativos de entretenimento e jogos atraentes, podem significar armadilhas para captura de dados, oferta de serviços e até mesmo, coleta de dados sensíveis (opinião, etnia, genética, religião, gênero ou qualquer dado que possa ensejar discriminação) que podem ser negociados sem nosso controle.

Para melhor perceber o campo de batalha, onde ataques são invisíveis, podemos citar como ameaça, o software ransomware que sequestra dados armazenados. Entre 2019 e 2020 registrou-se um aumento de 12% nos sequestros de dados. Com a pandemia, o crescimento registrado saltou para 148%[3]. Estes ataques costumam exigir o pagamento de resgate em criptomoedas, além de deixar a organização vulnerável a invasões, prejuízos e retrabalho.

As investidas podem partir de atores inusitados com graus de sofisticação surpreendente. A rede varejista Target nos Estados Unidos, há alguns anos, teve capturado de sua base de clientes, de 40 milhões de números de cartões de crédito e débito. Tudo isto, através da descoberta de um software malicioso, instalado no sistema de uma empresa terceirizada que fazia a manutenção dos condicionadores de ar da empresa.[4]

A boa notícia é que existem formas de nos defendermos. Algumas estatísticas afirmam que 95% dos cyberattacks ocorridos, poderiam ter sido evitados.

Ao considerar a interdependência das identidades, familiar e organizacional, e a capilaridade dos cyberattacks, fica perceptível o risco iminente de atitudes e comportamentos individuais dos familiares impactarem no grupo familiar e na organização.

Segundo a Federação Nacional de Seguros Gerais, o mercado de seguros cibernéticos teve um crescimento expressivo de 63,9% no último ano de 2020. A mudança para trabalho remoto e a maior utilização de canais online aumenta a exposição a ataques. Pequenas e médias empresas costumam ser alvos comuns por não terem estruturas mais robustas de controle.

O seguro é uma medida paliativa que minimiza danos, já causados por um comportamento descuidado do usuário. Mas, assim como todo negócio, existem precedentes de segurança que incidem no valor dos contratos das apólices. Se recursos são escassos é bom medir se o investimento será em tecnologia de informação, treinamento ou seguros.

Familiares que carregam sobrenome corporativo estão submetidos ao interesse de hackers no mundo digital. É, portanto, dever da governança proteger, conscientizar e educar a família, sobre riscos de investidas desconhecidas e excessos de exposições de informações privadas. As consequências podem escalar das identidades individuais, para as identidades da família e a da empresa.

Artifícios requintados, como a produção de vídeos através da técnica deepfake, que utiliza inteligência artificial e machine learning para manipular imagens, dados e perfis, podem camuflar diferentes intenções.

O poder de sedução do deepfake foi comprovado com a viralização do aplicativo Zao, lançado na app store da China, que permite que a imagem do usuário substitua a dos atores em cenas de filmes famosas. Esta capacidade pode também deixar reputações vulneráveis.

A Governança Familiar deve aproveitar a implementação de políticas de segurança de informação da empresa, frente a LGPD, para implantar uma política de segurança específica para a família. Na Governança Familiar, os Conselhos de família atualizados com políticas validadas pelo board, podem divulgar para os familiares, os potenciais riscos cibernéticos. Canais internos da empresa, workshops e palestras de terceiros sobre o tema, podem apoiar e ampliar a compreensão dos riscos e a educação digital.

Com relação a atitudes práticas, o Conselho de Família (ou outra estrutura que o substitua) pode propor para família a construção de um Código de Boas Práticas de Conduta Digital que envolva dois aspectos: Técnicos – que defina uma baseline de segurança de informação, do sistema operacional e a forma como deve ser utilizado pela família e, Comportamentais – que oriente sobre exposição de identidades pessoais.

A Governança Familiar deve prezar pela segurança da identidade familiar e da reputação de seus membros. São eles sócios e prováveis sucessores e, portanto, devem transmitir credibilidade e responsabilidade com o legado. O Conselho deve sugerir e formalizar políticas que joguem luz na vulnerabilidade dos egos e liguem os alertas.

Entretanto, vale lembrar que são os valores e princípios, de cada núcleo familiar, como equilíbrio, humildade e discrição que, de fato, internalizam a compreensão da responsabilidade que cada um possui, não só com seus familiares, mas com o ecossistema da empresa.


[1] NOVAES, Sylvia Caiuby. Jogos de espelhos: imagens da representação de si através dos outros. São Paulo: Edusp, p.23 a 27 1993.

[2] https://www.governancanorio.com.br/governanca-e-privacidade-em-empresas-familiares/

[3] https://www.infomoney.com.br/economia/crescentes-ataques-ciberneticos-na-pandemia-ameacam-as-empresas-veja-como-se-proteger/

[4] https://www.angelkings.com/target-corporation

Publicado emArtigos

Deixe uma resposta

Fechar
Open chat
Converse com Legado e Família no WhatsApp
Powered by