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Domingo passado, eu e uma parceira nos aventuramos no Clubhouse para abrir um canal de conversas sobre empresas familiares. Diante da proximidade com o dia da mulher, decidimos falar sobre o percurso das mulheres nas empresas familiares.

A experiência foi bem interessante, mas confesso que a exposição na plataforma nova me gerou certa insegurança e ansiedade. Pensei no conceito de antifrágil e embarquei com insegurança e tudo, afinal, parafraseando Taleb, “a antifragilidade implica ter mais a ganhar do que perder[1]

E nós mulheres entendemos disso. Desenvolvemos a antifragilidade com o tempo.

O contexto desse artigo é o ecossistema de empresas e famílias e tem como objetivo homenagear as mulheres que inspiraram as duas últimas gerações. Se você for do tipo que não gosta de beber na fonte do passado, pule a leitura e siga suas convicções.

Na retrospectiva da fundação e construção dos negócios, mulheres tinham um lugar coadjuvante onde representavam papéis sociais ou informais. Facilitavam a fluidez de comunicação, relacionamentos e a resolução de conflitos. Proporcionavam um bom ambiente para as decisões do chefe da família, participavam de festas de homenagem aos funcionários da empresa e atuavam como conselheiras informais dos maridos no crescimento dos negócios.

Nossas irmãs, mães, avós, ou bisavós, assistiam o sucesso e colhiam os frutos talvez alheias da consciência de que eram também raiz, um alicerce.

De uma forma ou de outra, nós mulheres sempre representamos o meio, o processo, um canal que torna possível ou facilita, um evento. Dos tempos de casamentos arranjados por interesses à produção de herdeiros, sem nós mulheres, nada acontecia. Entretanto, não havia a dimensão, tampouco o reconhecimento da importância deste papel.

Em empresas familiares, mulheres das gerações anteriores, que chegaram a atuar de forma mais participativa, até foram reconhecidas como matriarcas através de homenagens simbólicas. No contexto da época, era uma forma de se expressar gratidão.

Em algumas outras famílias, gerações posteriores valorizaram o papel das mulheres da família e, como reparação, fizeram homenagens póstumas. Outras famílias, ignoraram a contribuição das mulheres, deixando-as invisíveis para as gerações seguintes.

Na esteira da influência de uma cultura patriarcal, a privação de direitos e a submissão ao pai e ao cônjuge varão estavam amparadas pela legislação desde os primórdios da consolidação do capitalismo. Eram claros os limites da dependência e das possibilidades de crescimento das mulheres.

O código civil de 1916 restringia o direito de as mulheres alienarem seus bens, ainda que próprios ou trabalhar sem a autorização do cônjuge. Aceitar mandatos também dependia de autorização dos maridos, o que significava limitação nos direitos políticos, consequentemente nas decisões das empresas. Ainda que a empresa fosse de origem da família da mulher, maridos, como chefes da sociedade conjugal, eram os representantes legais e administravam os rendimentos.

A educação corroborava com os valores concebidos pela sociedade. Escolas, quando mistas, ofereciam grades curriculares distintas para mulheres e homens, reservando às mulheres atividades compatíveis com suas “vocações”, como o magistério, e, aos homens, conteúdos mais formais dirigidos ao bom desempenho no trabalho.

Somente em 1961 foi garantido a equivalência de todos os cursos de grau médio e as mulheres puderam ter chance de acessar uma universidade.

A sociedade confundia características como facilitadora, sensibilidade, dedicação e delicadeza com fragilidade e capacidade. O que contribuía para um desnivelamento no preparo para gestão de negócios

Não partimos do mesmo ponto. Há um histórico de inequidade de gênero na educação.

Em 1962, eliminou-se a parcial incapacidade da mulher, equiparada aos menores de idade. Naquela altura, o controle de muitas famílias e suas empresas permanecia nas mãos dos homens. Até então, a realidade das mulheres de famílias empresárias era de pouca instrução e falta de controle de suas riquezas.

Na sequência cronológica, ainda que a Lei do divórcio, em 1977, tenha propiciado às herdeiras a possibilidade de libertação da dependência financeira dos maridos, as mulheres sofriam o julgamento de uma sociedade preconceituosa que as aprisionava. Outra preocupação era expor os filhos e serem descriminados.

Além da barreira emocional, prevalecia a cultura de que as unidades geradoras de riqueza, como indústrias, fazendas e outros negócios familiares, deviam ser destinadas a administração dos homens, sejam eles cônjuges, irmãos e até cunhados. Desta forma, permanecia em poder masculino, a gestão de muitas empresas familiares.  

Muitas herdeiras mulheres foram prejudicadas na distribuição de riqueza em benefício dos filhos homens. As apropriações dos bens e seus rendimentos, facilitadas pelo poder de gestão que se concedia aos homens na cultura patriarcal, deixavam as mulheres suscetíveis também a oportunismos de seus cônjuges. Muitas famílias enfrentaram e enfrentam processos em que se pleiteia uma reparação ou anulação de partilha de bens, ou petições de busca de bens não declarados. Muitos conflitos e muita dor.

Apesar do histórico de restrições que as deixavam a margem da gestão dos negócios, temos exemplos de mulheres que, por conta das circunstâncias da vida, se viram diante de oportunidade de protagonismo e não se mostraram frágeis. Motivadas e confiantes em suas ideias, e, talvez também inconformadas com perdas e dependência, enxergaram em desafio, oportunidade. Não titubearam em colocar a“skin in the game.”

Na concepção de Taleb em seu livro Antifrágil, não se encara como perda o que nunca se possuiu de fato.

“Naquele cenário, mudanças não representavam perdas, qualquer coisa de diferente poderia representar um ganho”

Oportunidade circunstancial de exercer o poder e vontade de se responsabilizar mediante a possibilidade em delegar problema, mais uma vez, para outro homem conduziram algumas mulheres aos cargos de decisão. A confiança, a liderança e a humildade foram algumas características de mulheres que assumiram o protagonismo e influenciaram o destino de suas empresas. 

Magazine Luiza, Lupo, Embraquim e muitas outras empresas, tiveram mulheres como líderes que assumiram responsabilidades e conduziram suas empresas.

Importante compreender que a trajetória destas mulheres até o poder representou forte ruptura nos valores das gerações. Mulheres da geração X e anteriores, enfrentaram uma sociedade muito mais rígida do que a nossa realidade.

É possível imaginar o tamanho do impacto em funcionários, familiares, fornecedores e clientes que tinham como referência, a imagem do dono/fundador, ao ter que lidar e negociar com lideranças femininas.

Por outro lado, também imagino o desafio imposto às mulheres que precisaram se impor como líderes e inaugurar sua própria história, sem a sombra do fundador.

Isto era uma baita inovação. Uma refundação, um transplante cultural.

Não é fácil transformar a cultura de uma empresa, mas quando isso acontece de fato, inaugura-se um terreno fértil para a inclusão e, consequentemente, para inovações.

Este artigo foi dedicado as mulheres que abrem caminhos e que nos inspiram para irmos além do frio na barriga. Luizas, Lilianas e Lauras, que apesar de origens e educação distintas, além das iniciais em comum, ilustram para mim o significado de mulheres antifrágeis.

Referências bibliográficas:

https://danylrizzo.jusbrasil.com.br/artigos/329309322/o-regime-de-bens-no-casamento-como-reflexo-das-conquistas-das-mulheres-na-luta-pela-sua-inclusao-social-e-igualdade-de-generos

https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-15742009000100007


[1] Taleb, Nassim, Anti-Frágil

Publicado emArtigos

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