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No estabelecimento de uma governança familiar é comum destacar os valores presentes na construção das empresas e provocar a compreensão do propósito que as move, ou seja, o porquê de sua existência bem como, onde se quer chegar. A compreensão da família, suas complexidades e a identificação de quais serão as estratégias para seu desenvolvimento e participação no negócio e fundamental para estruturação da governança.

Ao percorrer esta trilha é possível identificar vestígios de interesses incompreendidos e necessidades desatendidas de membros da família que podem ter como desdobramentos, potenciais conflitos.

Uma das definições de conflito que mais me impacta é a que o define como desconforto. O ser humano reage de formas diferentes a situações desconfortáveis. Brigar, adiar ou fugir são algumas das respostas comuns.

O confronto é uma forma de expressão autêntica que, de certa forma, carrega uma visão realista da existência de um impasse, mas invariavelmente destrói valor. No outro lado das reações, negar ou adiar prevalece uma ilusória zona de conforto, onde é entendido que desatar nós, ameaça o equilíbrio das relações, ou ainda, que o desconforto vai se dissipar com o tempo.

Brigar ou tentar “tapar o sol com a peneira” para proteger a família de divergências, são reações que expressam intenções legítimas, no entanto, não resolvem nem minimizam as questões dos lados envolvidos. Pelo contrário, contribuem para a escalada do dissenso e, ainda podem incorrer no risco de contaminar o ambiente da empresa.

42% das 279 empresas familiares entrevistadas na pesquisa deste ano, realizada pelo IBGC em parceria com a PWC, apontaram conflitos familiares como a principal causa da saída de sócios de suas empresas.

É difícil e complexo encarar conversas delicadas. Algumas pautas como a demissão de filhos, planejamento sucessório, afastamento do fundador ou necessidades de redesenho na política de distribuição de dividendos podem ser traumáticas para a família e para a empresa.

Possibilidades de conflitos de interesses em empresas familiares não faltam. Alguns deles, de natureza societária, incluem desavenças entre sócios majoritários e minoritários, e envolvem o medo de perder o controle e ambições de poder. Outros, de natureza familiar, podem ter como pontos, o desejo de trabalhar ou não na empresa da família e, por fim, há conflitos em torno da gestão, que podem ter origem no desalinhamento nas motivações de gestores, familiares ou sócios. Percebe-se que há sentimentos em todas essas disputas.

Conforme o tempo passa, as realidades da empresa e da família se modificam e verifica-se uma complexidade maior na articulação de interesses entre os familiares em seus diferentes papéis. Não procurar escutar e dedicar importância a acomodação de interesses nos três sistemas (propriedade, Família e Gestão) contribuiu, em muito, com as estatísticas que apontam para baixo o índice de sobrevivência das empresas familiares

Para reverter esta tendência, se faz necessário um olhar mais apurado para a mediação de conflitos. Há profissionais no mercado, certificados e preparados para atuação na área corporativa, que facilitam entendimentos e negociações entre os membros da família. Pode ser bem proveitoso utilizá-los também de forma preventiva, para treinamento na interação familiar, o que pode contribuir para pavimentar a sedimentação do trabalho da governança familiar.

Conversas difíceis entre os membros da família podem e devem ser acompanhadas por profissionais com habilidades em mediação de conflitos. Estas conversas podem ocorrer de forma privada ou conjunta. Profissionais apartidários, o mediador e o facilitador de diálogos respondem ao compromisso ético de confidencialidade, o que assegura um clima de confiança para que as partes descarreguem suas emoções em conversas privadas. O mediador atuará nessas conversas, como um filtro emocional traduzindo os interesses que foram autorizados a serem revelados. Com a drenagem de emoções, a qualidade do diálogo se eleva.

Em algumas negociações mais tensas, as reuniões privadas possibilitam ao mediador encontrar interesses subjetivos. Com uma visão ampliada e privilegiada, o mediador, além de explorar a convergência de interesses das partes, pode promover, com cada uma delas, exercícios de reflexão, que incluam a batna e a watna , (que resumidamente significa facilitar a visualização das consequências das escolhas) e assim, estimular a criação de propostas exequíveis e de benefício mútuo para resolução da questão.

É sabido que a mediação é um meio de resolução de conflitos célere e de custo acessível a pequenos e médios empresários. Além disso, o método oferece a oportunidade dos envolvidos serem autores na composição de acordos, que podem ser, posteriormente, homologadas pela justiça. Outra vantagem em negociar com assistência de um mediador é manter a divergência discreta e sem publicidade.

Um lado interessante a ser explorado nas empresas no “guarda-chuva” da mediação de conflitos, é o papel dos facilitadores de diálogo. Este profissional pode ser introduzido de forma preventiva, ou seja, atuando antes do conflito se instaurar. Instruir os familiares sobre técnicas de interação familiar como, a manifestação de não concordâncias de forma construtiva e a escuta empática, possibilitam uma qualidade de diálogo mais produtiva.

Este profissional, quando certificado por institutos de mediação possui a garantia de ser treinado com as mesmas habilidades do mediador de conflitos. Quando a estratégia da família inclui o interesse de seus membros na continuidade da propriedade, a governança familiar tem entre suas atribuições cuidar da educação da família. Assim, promover cursos e workshops, com profissionais habilitados e disseminar o conhecimento de técnicas de diálogo para os familiares, auxilia desde cedo a família a interagir de forma produtiva.

O aprendizado pode auxiliar a romper com uma parte inadequada de padrões repetitivos de comportamentos, que são transmitidos de uma geração para outra. Cada família desenvolve sua maneira em lidar com as diferenças, e essas formas de agir, muitas vezes, se perpetuam e contaminam o interagir.

Atitudes como interromper, tentar impor posições, não escutar o outro, silenciar, gritar, ameaçar ou sair da sala indignado, podem significar exemplos de padrões aprendidos pelas gerações seguintes.

É possível treinar as pessoas para que se empenhem na escuta e evitem vícios como o de interrupção de falas. A escuta ativa possibilita aprender a compreender desconfortos e incluir ideias com base em outras perspectivas, assim pode mover posições em direção ao consenso na construção de ideias.

Aprender a comunicar pretensões, medos e preocupações e a se conectar com fragilidades, que levam o outro a se colocar inadequadamente, eleva o grau de compreensão e evita entrar na espiral de desavenças, conspirações e mágoas que acabam se desdobrando em conflito, manifestado ou represado.

Entendido que o facilitador de diálogos pode atuar no sentido de acomodar melhor desconfortos, permitindo de um lado, a tradução de emoções em manifestações adequadas e, do outro, o melhor entendimento de interesses, nota-se o quanto é válido para a governança familiar não prescindir da presença deste profissional.

Mediadores e facilitadores atuam na limpeza do terreno e na prevenção de conflitos pessoais e interpessoais da família, estejam eles declarados ou submersos. Ao contribuir com a abertura do diálogo entre as partes, auxiliam os envolvidos a compor soluções. Quando se consegue abrir o diálogo, as pessoas se sentem compreendidas e mais pertencentes ao grupo familiar. Essa sensação de inclusão contribui para a coesão da família.

Aprender a dialogar significa um passo importante que facilita a composição de acordos e a instauração de propostas inseridas em projetos da governança familiar, como a construção de um protocolo de família.

O conflito emerge da diversidade de ideias. É urgente que se aprenda a lidar com desconfortos. Embora temos observado, políticas mais inclusivas nas empresas, estas precisam ser acompanhadas do aprendizado de interação e diálogo. Estamos vivendo tempos de polaridades onde cada lado, tenta imperar sobre o outro. A mediação, acompanhada do diálogo, nos ensina que compreender a diversidade, amplia e provoca, de forma criativa, a maneira de pensar das partes envolvidas, gerando ganhos inclusive de inovação.

Publicado emArtigos

Este post tem 2 comentários

  1. Excelente texto Adriana. Mediação de conflitos é um tema de suma importância como processo de governança familiar. A presença de um profissional externo que tenha imparcialidade, isenção, comportamento ilibado e boa vontade em auxiliar os membros familiares na descoberta de caminhos para a solução dos conflitos é necessária. Embates e conflitos fazem parte de nossa existência. Porém, precisamos saber lidar com eles com sabedoria e equilíbrio (o que é difícil, mas não impossível). Um apoio externo, com um olhar para questões que muitas vezes não enxergamos, é fundamental para desatar os nós de muitos imbróglios familiares. Forte abraço.

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