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Entrevista concedida a Revista Santander Empreendedor, em 16/09/2010.

O endividamento de uma empresa pode ser encarado de maneiras completamente distintas. Se do tipo que o pagamento ocasiona buracos no orçamento, fruto da necessidade de financiar atividades cotidianas ou para recuperar capital passado, por exemplo, é sinal de que as finanças não vão bem. No entanto, se decorrente de visão estratégica do empreendedor que busca aproveitar uma oportunidade de negócio, o endividamento com bancos ou instituições financeiras pode ser até melhor do que o uso de capital próprio. A afirmação é de Carlos Alberto Ercolin, professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas).

Segundo explica, o capital de terceiros tende a ser mais barato em função do risco que o emprestador tem. “Um banco só empresta dinheiro mediante garantias. Então, o risco dele é menor e, por isso, cobra menos em juros. Em finanças é preciso considerar a relação risco/retorno. E nesse caso, quem corre mais riscos é o próprio empresário, que em caso de quebra é sempre o último a recuperar o dinheiro”, afirma. Além disso, na opinião de Ercolin, o pequeno empresário tende a achar que o capital dele não tem custo. No entanto, se o dinheiro dele fosse aplicado, poderia ganhar até 1,5% ao mês em alguns fundos”, exemplifica ao salientar a importância de separar completamente a conta da empresa da pessoal.

Outra possível vantagem do financiamento, essa apontada por Luiz Ricardo Grecco, consultor do Sebrae-SP (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Estado de São Paulo), é a disciplina. “Quando o dinheiro é do empresário, ele planeja o pagamento para ‘quando sobrar’. Já quando entra em dívida, sabe que qualquer atraso no pagamento terá consequências”, acredita.

Avaliação da oportunidade

Para saber se é vantajoso tomar emprestado, o empresário precisa ter convicção de que está diante de uma oportunidade, seja ela de ampliação do negócio, de aquisição mais vantajosa de insumo ou de firmar algum contrato de fornecimento mais volumoso, por exemplo. A partir daí que será possível avaliar se a transação vale ou não a pena, conforme afirma Grecco. “A oportunidade precisa apresentar potencial de retorno, com taxa de rentabilidade que seja compatível com os juros cobrados pelo financiamento”.

Esse é o momento de simular a TIR (taxa interna de retorno). Ou seja, quanto o investimento proporcionará. Por isso, é essencial verificar os possíveis comportamentos das entradas e saídas de caixa ao longo do tempo. E, nessa simulação, a recomendação de Ercolin é para que o empresário seja realista ao considerar as premissas. Ou seja, nada de prever vendas mirabolantes e despesas irrisórias. Além disso, é imprescindível supor imprevistos e cenários 2 não tão otimistas. É o que o professor da FGV chama de análise de sensibilidade. “Provoca-se variações nas premissas para observar a influência na TIR. Assim, mesmo que algo dê muito errado, será possível ter consciência de quais serão os efeitos sobre o investimento”, diz.

Linha de financiamento

Sabendo qual é o provável retorno do investimento, é hora de ir atrás da linha de financiamento adequada. Como afirma Grecco, não existe taxa de juros alta ou baixa. O que existe é crédito compatível ou não com o projeto. “Para o sujeito que, em domingo de jogo, revende a R$ 2,50 a cerveja que comprou por R$ 0,90 – uma taxa de retorno de 300% -, um financiamento que cobre juros de 15% ao mês pode ser adequado”, exemplifica. Continuando no exemplo, ele conta que a viabilidade da taxa de juros existe porque a liquidez desse tipo de investimento é muito grande e todas as vendas são recebidas em dinheiro, com inadimplência próxima de zero. “Se ele não tem oportunidade de financiamentos mais baratos, antes ter ganho menor do que não ter ganho algum”, pondera. A contrapartida desse exemplo também é verdadeira. Ou seja, por maior que seja a margem de lucro, se baseada em taxa de juros alta demais, o projeto pode ser inviável.

É nesse momento que cresce a importância de considerar o chamado custo de oportunidade, ou seja, o leque de oportunidades do que é possível fazer com o dinheiro. Para efeito de exemplo, Grecco sugere considerar que uma empresa só tem como alternativas de investimento a poupança, que paga 6% ao ano, e a própria produção, que tem retorno de 8% sobre o capital investido no mesmo período. Caso essa empresa verifique que um novo projeto daria retorno de 7%, o custo de oportunidade não vale a pena, pois já obtém retorno maior com a atividade atual. “Isso porque é preciso calcular o risco também. Um projeto no Iraque tem que dar mais retorno do que um nos Estados Unidos ou no Brasil. Assumir novos riscos para ganhar o mesmo não compensa”, alerta.

Limites do endividamento

A aplicação desses conceitos tem limite, pois chega um momento em que, por mais atraente que sejam as oportunidades de investimento, o empresário precisa verificar se não está comprometendo o fluxo de caixa da empresa com o pagamento de empréstimos – ainda que os mesmos estejam dando lucro. O parâmetro sugerido por Grecco é a mesma regra utilizada pelos bancos para conceder empréstimo à pessoa física. Isso significa não comprometer mais do que 30% da renda com o pagamento, pois o restante é o que é considerado essencial para as demais necessidades. “Numa empresa ocorre mais ou menos o mesmo. Para começar, é interessante colocar o limitador na casa dos 30% do faturamento. Com o passar do tempo o empresário começa a aprender a calcular o limite”, sugere. Outro termômetro é a própria taxa cobrada pelo banco, pois quanto mais endividada uma empresa está, mais a taxa aumenta. “Daí, chega um ponto em que o banco está cobrando juros de 10% para um projeto que tem como potencial dar retorno de 8%”, alerta Grecco. Estabelecer limites é importante até para que o empresário não passe a encarar o empréstimo como um fardo, que está consumindo recursos que a empresa precisa aplicar em outros locais. Senão, com o tempo, há o risco de ele ficar receoso de investir no crescimento do negócio.

Acompanhamento constante

Nem sempre a realidade reflete o planejamento, por mais detalhado que ele seja. Por isso, a recomendação é acompanhar de perto o que está acontecendo com o dinheiro investido. Assim, Ercolin recomenda que o empresário se acostume a produzir e acompanhar relatórios periódicos que sejam, pelo menos, mensais. Nesses documentos serão computadas a previsão e a constatação do que está acontecendo. “Somente assim ele vai conseguir planejar o que vai fazer com os resultados, sejam eles positivos ou negativos”, explica. Ele ressalta afirmando que, em termos financeiros, qualquer resultado diferente entre orçamento e controle orçamentário é considerado risco, mesmo que seja positivo.

Isso porque o empresário não pode simplesmente não saber o que fazer com eventuais sobras de dinheiro. Grecco, do Sebrae, concorda com a opinião de Ercolin. Para ele, é interessante destacar, no controle orçamentário, a conta que considera o investimento e o retorno previsto. “O ideal é não misturar com outros elementos nem usar campos genéricos. Assim, é possível ter uma ideia de quanto tempo leva para que o capital investido retorne”, revela. Caso o empresário não tenha pleno domínio das ferramentas financeiras que tem à disposição, Ercolin sugere que ele procure ajuda junto às instituições de apoio ao empreendedorismo. “Em geral, os pequenos e médios empresários acham que é obrigação nascer sabendo controlar as finanças e ficam com vergonha quando tem problemas”, lamenta.

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