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Recentemente, me lembrei da história do norte-americano e do japonês andando no meio de uma floresta na África, quando de repente aparece um leão aparentando muita fome. O norte-americano, mais do que depressa, comanda: “Vamos correr!”. O japonês senta e começa a calçar um tênis. Vendo a cena, o outro comenta, irônico: “Você acha que vai correr mais do que o leão com esse seu tênis? Ao que o japonês retruca: “Não, só pretendo correr mais do que você”.

Você já calçou o seu tênis? O impacto da Covid-19, como todos dizem, todos os dias, é universal, será traumático para muitos e persistirá por um tempo ainda indeterminado. Teremos mudanças radicais, evidentemente, com uma grande dose de incerteza, em cenários não antevistos.

Há quem diga que é preciso equilíbrio entre compaixão e pragmatismo. Alguns julgam necessário ter menos quarentena e mais atividade econômica, enquanto outros enxergam nesses paradoxos problemas incontornáveis. A saída não é tentar resolver os paradoxos. Há indicações sólidas de que o isolamento social tende a proteger o sistema de saúde, diminuindo a demanda por recursos críticos a curtíssimo prazo. Mas, se as pessoas não tiverem atividade econômica que lhes traga receita agora, não terão condições de sustento. Típico paradoxo que precisa ser gerenciado: não dá para fazer as duas coisas simultaneamente.

Numa tentativa de organizar os pensamentos para projetar o que vem pela frente, volto à hierarquia de necessidades de Maslow e noto que todos continuaremos a ter necessidade de alimentação, vestuário e abrigo, bem como do sentido de pertencimento, reconhecimento, amor.

A primeira pergunta é se essas necessidades serão satisfeitas pelos mesmos bens e serviços que nos atenderam até agora. Todos continuaremos precisando de comida e agasalho. Todos temos de cuidar da saúde. Estamos numa sociedade gregária que vai continuar exigindo conforto emocional, aconchego e outras atividades sociais que induzem a presença física.

Tenho sempre receio de ver a conjuntura pelos olhos de quem, em relação à grande maioria da população brasileira, é diferenciado (para não dizer privilegiado). Nosso país tem mais telefones celulares do que habitantes, mas a penetração de smartphones ainda é da ordem de 50% da população. Nossa distribuição de renda ainda é perversa: o número de pessoas que se candidatou à bolsa de R$ 600,00 mensais é da ordem de 30 milhões. O Brasil que vai surgir da pandemia ainda será um país pobre, de população com baixo nível de instrução e com atendimento à saúde ainda precário. E com uma sinistra carteira de mais de 20 milhões de desempregados.

Conta a história empresarial que, em seus primórdios, a Casas Bahia fazia questão de ter sua própria frota de caminhões para entregas de seus produtos, para reduzir perdas e fraudes. As entregas eram feitas de casa em casa, qualquer que fosse o endereço. Natura e Avon (hoje partes do mesmo grupo empresarial) cresceram com a capilaridade de suas consultoras. O gigante atacadista Martins, de Uberlândia, MG, montou uma rede de distribuição que abrangia mais de 7.000 cidades brasileiras, que recebiam todo tipo de produto. Tanto Coca-Cola, quanto a então Brahma e a Souza Cruz (no tempo em que muitos fumavam), tinham frotas de veículos que permitiam atendimento a todos os bares e padarias do País. Em 1988, foi criado o SUS visando dar ao país um sistema universal de atendimento à saúde em três níveis: unidades básicas de saúde; hospitais secundários/ambulatórios de especialidades; e hospitais terciários. Se o conceito é impecável, a práxis é difícil de implementar, como estamos vendo hoje. Com ou sem pandemia, os recursos são escassos para atender perto de 80% da população.

Os poucos exemplos que ilustram o texto procuram enfatizar que o Brasil pós pandemia continuará a ser um país com 210 milhões de habitantes, a sua grande maioria com baixo poder aquisitivo e com as necessidades definidas por Maslow, quer seja um morador da sofisticada Barra da Tijuca no Rio de Janeiro, da comunidade de Heliópolis em São Paulo, ou um ribeirinho na região amazônica.

Nossos desafios não mudam. O que vai mudar é a forma com que muitos dos nossos problemas e de nossos paradoxos serão abordados. Já é possível imaginar uns poucos exemplos. A forma de trabalhar poderá ser muito impactada. Poderemos ter de ampliar ações que já estão entre nós, tais como trabalho em casa, reuniões por teleconferência, simplificação de processos e procedimentos. Como o impacto econômico da pandemia foi universal, todas as empresas precisarão ser mais eficientes e eficazes, fazendo mais com menos recursos. A logística de distribuição também será afetada. Se o mercado atendido permite acesso direto ao consumidor, muitos bens serão fornecidos com redução das etapas de entrega. Nada que seja, realmente, novo. Experimentos nessa direção já vêm sendo praticados há muitos anos. A diferença é que um mundo em quarentena, necessitando de bens e serviços, irá induzir mudanças em tempo muito mais curto. Na área da saúde, a telemedicina veio para ficar. Nos grandes centros urbanos pode ser uma forma de reduzir o tempo de atendimento. Nas regiões mais afastadas será a forma de prover atendimento.

Para as famílias empresárias, o grande desafio será analisar o contexto e procurar as melhores alternativas para aproveitar as oportunidades que estão surgindo. Covid-19 é uma grande sacudida na ideia de fazer de modo diferente o que sempre foi feito. O mundo anterior simplesmente acabou. Posso continuar com o mesmo produto, mas a logística de distribuição e venda será diferente, os canais poderão ser diferentes. Novos produtos, agregados de bens e serviços, serão necessários. Terão de ser concebidos, precificados, produzidos e distribuídos.

O enunciado “fazer certo a coisa certa” precisa passar primeiro pela reflexão sobre o que será a coisa certa, ainda mais porque temos à nossa volta um número grande de ferramentas e mecanismos para fazer certo. Temos hoje um grande número de gestores cuja única vivência de crise foi o abalo financeiro de 2008. Já são poucos os que estavam à frente de negócios durante os anos da hiperinflação brasileira, período em que todos tiveram de se ajustar rapidamente às mudanças. Há claras evidências de que práticas expandidas durante a pandemia (p.ex. teleconferências, trabalho em casa) permanecerão no nosso meio.

Tenho algumas reflexões sobre vantagens competitivas que se oferecem ao mercado brasileiro. Elas impulsionam minha esperança. Antes de mais nada, considere-se que somamos 210 milhões de habitantes. A queda acentuada de juros, no princípio do ano, já havia trazido um desafio aos detentores de liquidez. Ser rentista deixou de ser uma forma garantida de manter o patrimônio. Só essa condição já vai impulsionar boas oportunidades, bem como incorporar riscos bem maiores. Essa condição também é disponível fora do Brasil. Há liquidez, mas não se sabe se existem projetos compatíveis com as necessidades atuais e futuras. Logo aflorarão oportunidades importantes que hoje estão latentes.

Seguindo no raciocínio: temos uma agropecuária muito forte que vai garantir a disponibilidade de matéria prima para nosso alimento. Também temos petróleo suficiente para a matéria prima de uma série de produtos, bem como para combustíveis. Temos sol, clima ameno, uma população jovem com bem menos instrução do que necessitamos, e uma cultura que nunca privilegiou o uso das mãos, condição fundamental para o desenvolvimento tecnológico. Mas somos, no geral, gente trabalhadora, o que nos dá um mínimo de condições para superar com sucesso os desafios pós-Covid-19.

Mais ainda, nossas necessidades de investimento em infraestrutura são enormes. É preciso criar empregos. Há liquidez privada em abundância. Talvez tenhamos uma equação com solução não tão complexa. Todos falam sobre o que será necessário. Tenho visto pouca reflexão em como viver a passagem, ou seja, como iremos sair do que estamos vivendo para uma nova realidade. Os números brasileiros são enormes. Precisamos de milhões de empregos, bilhões para investimentos. Há liquidez interna e externa, e temos mercado. O desafio de construir e chegar lá é nosso, talvez começando a partir do Marco Regulatório do Saneamento, aprovado recentemente

Só vejo uma postura possível para quem tem DNA de empreendedor: arregaçar as mangas e ficar pronto para o que virá. A fórmula é: usar os recursos escassos disponíveis, fazer os investimentos necessários para seguir a tática do esperto japonês da piada, e chegar na frente da concorrência. Tudo pronto para a largada?

Junho/2020

(*) Fundador da F. Curado Governança e Sucessão

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